Santos no Inferno
são bento. são joão. são luís. Três Vias. Um blog.


Terça-feira, Agosto 21, 2007

Batismo de Sangue

A realizar o filme “Batismo de Sangue”, o cineasta Helvécio Ratton caiu na armadilha do roteiro pronto. Os personagens e histórias relatados por Frei Betto em seu livro homônimo, além de dramaturgicamente fortes, são reais, o que legitimaria a obra e sensibilizaria os espectadores para a questão da repressão e da tortura à época do regime militar no Brasil.

O resultado, porém, ficou aquém das possibilidades que o livro permite. Apesar de publicada com um hiato de dez anos, a obra de Frei Betto possui um tom urgente uma transparência de motivações difíceis de serem transportados para um filme feito 24 anos mais tarde.

Frei Betto escreveu “Batismo de Sangue” para registrar a participação de frades dominicanos junto à luta armada contra o Estado Autoritário, honrar a memória de Frei Tito (que se suicidou após ser vítima de tortura) e defender a imagem sua Ordem contra as acusações de ter colaborado com a morte do guerrilheiro Carlos Marighella.

O filme transforma o desencadeamento temático e afetivo do livro em uma narrativa praticamente linear. Isso faz parte de sua (boa) proposta de neutralizar as firulas cinematográficas para valorizar o drama minimalista dos personagens. O respeito à militância e à fé desses protagonistas fez com que o cineasta optasse pelo intimismo na direção. O problema é que o minimalismo exige atores soberbos, com poder de sintetizar nos mais sutis movimentos as angústias e as tensões de seus personagens.

Não é o que vemos em Caio Blat, que faz um Frei Tito caricato, com um sotaque indigno, de novela global. Daniel de Oliveira se sai melhor, como um contido e discreto Frei Betto. Como seu personagem, Daniel quase abre mão de ser o protagonista que é, para que a história e os outros personagens cresçam. Se Carlos Marighella é conhecido por seu carisma, o ator Marku Ribas desenvolveu um personagem marcante, à sua altura. A acertada opção por um ator desconhecido traz legitimidade ao papel.

À época do regime militar, o então estudante e militante Helvécio Ratton foi condenado a prisão e exilou-se no Chile, onde conheceu pessoalmente Frei Tito. A vontade de tratar da tortura com coragem e dialogar com os jovens de uma geração desiludida com a militância e a política, no entanto, resultou em filme demasiadamente didático. Didático na utilização das músicas, nas intervenções da TV e do rádio e nas apresentações dos personagens, por exemplo.

Ao valorizar uma militância romântica, o filme reforça a idéia de que as décadas de 80 e 90 foram perdidas, quando na verdade, foram palcos de importantes lutas pela conquista e consolidação da democracia.

Há, sim, boas cenas, como a missa realizada na prisão e o lendário congresso da UNE em Ibiúna, creio eu, até então inéditas na cinematografia nacional. E as tão faladas seqüências de tortura são, ao meu ver, as mais reveladoras de a como realidade pode superar a ficção. Longas, detalhadas, fortes, e, acima de tudo, necessárias.

No entanto, essas pérolas se perdem em um mar de clichês. Alguma coisa está errada quando um jovem se contenta ao assistir um filme sobre pessoas que lêem e militam pelas causas de seu tempo ao invés de ler e militar pelas causas de seu próprio tempo.

dito e feito por Urbenauta| 4:25 PM
Vozes do Além:


Quarta-feira, Julho 11, 2007

8 programas que eu ainda não fiz em São Paulo

Clichês aos quais a gente não consegue resistir...

1. Assistir a um jogo de futebol no Morumbi ou no Pacaembu
2. Ir a um concerto na Sala São Paulo
3. Fazer uma visita monitorada na Bovespa
4. Ir ao terraço do Banespinha
5. Fazer um curso na Casa do Saber
6. Jantar no Terraço Itália
7. Assistir a uma peça de teatro na Praça Roosevelt
8. Assistir a um Noitão no HSBC Belas Artes ou uma Odisséia de Filmes no Espaço Unibanco

dito e feito por Urbenauta| 4:22 PM
Vozes do Além:


Quarta-feira, Maio 30, 2007

A moto e o disco voador
 
Fazer ficção sobre a vida de alguém que, em tese, não teria muitos motivos ou oportunidades para abstrair a realidade é um desafio. Pois o cineasta Ricardo Elias resolveu essa charada com maestria: Heracles, o personagem principal de "Os Doze Trabalhos" desenha quadrinhos que extrapolam os absurdos de sua vida de jovem morador da periferia, egresso da famigerada Febem.
 
É assim que caímos, com gosto, na armadilha de Elias. O que poderia ser um filme sobre a "realidade nua e crua da periferia" torna-se algo muito maior: um tratado sobre pessoas complexas, repletas de sonhos e desejos.
 
Não que não haja realismo no filme. Ele existe, mas é de outra ordem. A necessidade econômica se impõe, como não poderia deixar de ser, e define posições e situações que não existiriam se vivêssemos em uma sociedade mais igualitária. Esse abismo social, no entanto, não é retratado por Elias com paternalismo. O diretor não assume a bandeira "dê oportunidade a quem precisa". Ao optar pela dignificação radical desses personagens, "Os Doze Trabalhos" não é campanha, mas reflexão.
 
O cinema está cheio de personagens pobres, que, por seu talento e obstinação, conseguem superar uma situação social difícil. Heracles é talentoso e obstinado, mas não tem necessidade de provar isso o tempo inteiro. Muito pelo contrário: é tímido, discreto e modesto como cabe a quem sabe usar suas virtudes com inteligência. Os outros personagens também têm camadas. As pequenas autoridades, por exemplo, ora parecem arrogantes, ora demonstram companheirismo.
 
É fato que "Os Doze Trabalhos" não se comunica com um público semelhante ao que retrata. Isso não é um problema em si. A minha esperança, remota, eu sei, é de que o filme de fato sensibilize os intelectuais e pseudo-intelectuais a quem é dirigido.

dito e feito por Urbenauta| 10:21 PM
Vozes do Além:


Quinta-feira, Abril 19, 2007

Esta é a sua vida

Depois de ter sido atropelada por um pneu, consegui outra façanha.

É meia-noite em Interlagos. Desço do ônibus, atravesso a avenida e vejo um carro da polícia diminuindo a velocidade, diminuindo... O carro pára. Espero o policial descer. O policial desce, apontando a arma para frente. Do ângulo em que estava, não consegui ver para quem.

Dei meia-volta antes que uma bala perdida me encontrasse. Ao procurar um lugar com mais gente, quase fui assaltada.

Chego de novo ao ponto de ônibus de onde tinha descido, pensando no que faria para sair dali imediatamente. Resolvi ligar para casa e pedir que a minha mãe me pegasse na rua de baixo.

Caminhando rápido pela avenida - tínhamos que sincronizar a chegada - tropeço em uma casca de banana e caio de joelho no chão.

Tropeçar em uma casca de banana, à meia-noite, na frente de um ponto de ônibus da avenida Interlagos, é o tipo de coisa que só acontece comigo.

dito e feito por Urbenauta| 1:41 PM
Vozes do Além:


Quinta-feira, Abril 12, 2007

Pontes

As pontes são curiosas. Em princípio, elas existem para unir, mas é interessante como são utilizadas para perpetuar a exclusão. No fundo, elas mais servem para dar conta de uma cidade que cresce de maneira desordenada e exige a invenção de bairros "emergentes". Afinal, pela mesma ponte em que ônibus passam apinhados de pessoas que só encontram trabalho no centro, atravessa uma elite em busca de refúgio e segurança. A imagem dos prédios luxuosos do Morumbi ao lado da favela de Paraisópolis já um clichê, mas não deixa de ser significativa.
Para ilustrar o que eu digo, vou contar uma história que aconteceu de verdade.
Vandinho nasceu há 22 anos do lado de lá da ponte João Dias. Ou melhor: do lado pobre do lado de lá da ponte. Fazia o que precisava pra sobreviver: trabalhava e tentava, com dificuldade, manter-se nos estudos.
Numa noite de quinta-feira, chamaram Vandinho para a balada, do lado de cá da ponte. Estavam em sete, e não cabia todo mundo no carro. Ele ficou a pé com mais dois amigos. "De ônibus não dá para ir, já é uma da manhã. Vamos pegar um táxi", disse. "Que nada, vamos pegar um carro", respondeu um amigo.
Os outros dois não botaram fé, e foram para um orelhão pedir um táxi. Enquanto telefonavam, apareceu o terceiro, em um Gol vermelho, provavelmente de alguém que nasceu do lado rico do lado de lá da ponte.
Antes de chegarem à João Dias, a polícia os cercou. Eles não desistiram. Quando os policiais apertaram o cerco, bem em cima da ponte, Vandinho pulou para fora do carro. E foi encurralado. Na beira da ponte, entre a polícia e os quase 7 metros de altura até as pistas da marginal do rio Pinheiros (ou o próprio rio), Vandinho ouviu dos guardas que eles não iriam atirar. Mesmo assim, tomou uma decisão rápida e trágica: pulou.
Estava bêbado? Entendeu que os policiais iriam atirar? Achou que fosse cair no rio e se salvar? Nunca saberemos.
Os outros dois que estavam no Gol vermelho foram presos. Os quatro do primeiro carro sumiram. A comunidade já não gostava muito deles, que eram "folgados" e viviam "causando". Tanto que seu pai foi armado ao velório, caso eles aparecessem. E assim a violência se perpetua.
Vandinho não conseguiu transpor o símbolo arquitetônico que o oprimia. Preferiu saltar dele.

dito e feito por Urbenauta| 12:41 PM
Vozes do Além:


Sábado, Março 24, 2007

How do visitors come to my site
Ou "Veja como grande parte da minha audiência não sabe usar aspas no Google"

"vozes do inferno"
Um clássico, campeão de audiência há três anos.

"fotos de homens nus de cor parda"
Peço desculpas pela expectativa, mas não possuo no momento.

"fotos anatômicas do telencéfalo"
Tenta o site da Escola Paulista de Medicina.

"filmes de negra se vestindo de freira"
Mudança de Hábito 1 e Mudança de Hábito 2.

"demônios que passam por santos"
Exorcista busca frila na internet.

"não sei como um papa pode escapar do inferno"
Nem eu.

"história verdadeiras de bullying"
Parabéns! Alguém encontrou o que queria, a despeito do erro de concordância. Obrigada e volte sempre.

dito e feito por Urbenauta| 1:50 AM
Vozes do Além:


Quinta-feira, Março 15, 2007

O surto

A chuva fina e a olhadela no relógio (18h47) bem que avisaram, mas eu insisti: Maria Aparecida de Aquino e sua lista de presença valeriam o sacrifício. E haja sacrifício: foram três ônibus e 2h30 de trânsito parado, com direito a pit stops em TODOS os locais passíveis de engarrafamento, entre o Ibirapuera e o Butantã.
Andar de ônibus em São Paulo é mesmo uma piada de mau gosto. Mas só é tão ruim assim porque existem eles, os malditos carros. Muitos deles, por sinal.
Eu odeio carros. Dizer isso pode ser uma deixa para ouvir: "duvido que se você pudesse você não teria um". Pois eu respondo: isso é verdade, e é o que mais me angustia. Sucumbir a essa praga para ter um pouco mais de dignidade ao se locomover será, para mim, uma grande derrota pessoal.
A gente sabe que a opção pelo transporte individual foi feita menos pela sua praticidade e viabilidade do que para trazer benesses para a indústria automobilística, que foi quem ditou o ritmo e o rumo da industrialização no Brasil na década de 50. Todos gostamos de Juscelino Kubitschek, mas as conseqüências de seu passeio em um fusca conversível na inauguração da primeira Volkswagen no país foram devastadoras. E se até o JK errou ao entregar de bandeja um campo tão estratégico, quem dirá seus sucessores - Jânio, os militares, Collor, Itamar, FHC e, é claro, Lula.
Sob a tutela de cada um deles, as montadoras cresceram e se estabeleceram. Com a ditadura, o carro tomou formas de um sonho de consumo relativamente acessível à classe média. Com Collor, veio a abertura para as importações e a redefinição da própria indústria nacional para a concorrência nesse novo mercado. Itamar provocou o episódio da reedição do Fusca - suficientemente pitoresco para não deixar sua gestão passar em branco nesse aspecto. Lula tapou alguns buracos (a preocupação com a quantidade de quilômetros era maior que com a qualidade e a eficiência do serviço) e está manipulando as possibilidades do biodiesel com ingenuidade e oportunismo. Exemplos de outros não faltam.
A quem ainda não percebeu, sinto informar que o sistema já entrou em colapso. Mais cedo ou mais tarde isso iria acontecer. Mas o que realmente me angustia é a falta de perspectivas. Não das pessoas - essas são as que sofrem diariamente - mas dos gabinetes.
Tive muito tempo para pensar em tudo isso naquela noite, enquanto me encolhia no banco e chorava de nervoso, miudinho, até os olhos ficarem inchados. O meu surto foi um choro constante e discreto, e evitou um grito ou um ataque epiléptico. Tem gente que tem fobia de avião; eu tenho terror a trânsito.
É por isso que eu vou comprar um Uno Mille branco e dirigi-lo tão mal quanto for capaz. Não é isso que eles querem de mim? Então agüenta!

dito e feito por Urbenauta| 1:51 AM
Vozes do Além:


Quarta-feira, Fevereiro 21, 2007

A crítica aos valores da sociedade norte-americana parece ser uma tônica recorrente a uma série de filmes que buscam legitimidade junto a um público já careca de saber o que acontece em seu mundo globalizado. Babel e Crash são alguns desses filmes. Eles se auto-intitulam inovadores na fórmula, mas, apesar de não ferirem a inteligência de ninguém, são seguros e conservadores porque apelam para uma estética "alternativa" mais do que consagrada. Uma contradição em termos, eu sei.
Com "Borat - O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América" a história é diferente. Imagine o cérebro de um Ernesto Varela aliado ao escracho da dupla Sílvio e Vesgo ou de um Jackass. É mais ou menos com esse espírito que o comediante inglês Sacha Baron Cohen revisita o seu personagem do programa "Da Ali G Show" para brincar de repórter cazaque na terra do Tio Sam.
O Cazaquistão é um país desmembrado da antiga União Soviética, que ainda procura se recuperar da quebradeira econômica advinda com a tal da nova ordem mundial. Cohen trabalha no vácuo do que não sabemos sobre esse país para reconstruí-lo à sua maneira e justificar o olhar que apresentará em sua aventura na América. O ator-roteirista aposta na perspicácia de seus espectadores para entenderem que a crítica está menos no estereotipo e mais na nossa ignorância sobre ele.
Embora conte com essa amarra ficcional, a realidade é a principal matéria-prima desse semi-documentário. Os momentos em que as pessoas fogem, se assustam ou se expõem são os pontos altos do filme. Como na dramática seqüência filmada em um rodeio, onde Borat é ovacionado ao defender a invasão no Iraque. Gradualmente ele recrudesce o argumento, e acaba por constranger toda uma platéia de ultraconservadores. Extremamente hábil e revelador.
Cohen joga baixo: é o primitivismo contra o primitivismo; o preconceito contra o preconceito, o politicamente incorreto contra a hipocrisia. Ele intervém no seu objeto de análise para mostrar como é difícil mudar a cabeça de quem acha que está certo. É claro que Cohen, no fundo, também acha que está certo, e fez um filme para tentar provar isso. Em tempos de Crash, Babel e etc. é natural que tendamos a concordar com ele e nos divertir com tantos olhos azuis arregalados de espanto.
Do mais, vale ressaltar a corajosa cena de uma briga entre dois homens nus em um quarto de hotel, capaz de embrulhar o estômago de muitos machões.

dito e feito por Urbenauta| 1:34 AM
Vozes do Além:


Sábado, Fevereiro 10, 2007

Eu admiro o Mel Gibson. Ele é corajoso. Não teve o menor constrangimento em apresentar um filme como Apocalyto. OK, isso não foi um elogio. Assim como não o será se eu disser que ele é "esforçado". Temática, argumento, recorte histórico, língua, fotografia, tomadas vertiginosas em pirâmides e precipícios... Ufa! Deve ter dado um trabalhão.
Apesar de ser notoriamente um trabalho autoral, no sentido de permitir o entendimento de uma visão de mundo bastante particular, todo esse zelo parece se sobressair à sua própria proposta.
Voltemos aos pontos fortes do filme: protagonista carismático (parece muito o Ronaldinho Gaúcho); boa retratação dos contrastes da sociedade maia. Não dá para negar que Gibson domina a linguagem cinematográfica: a fotografia, a direção de arte e a edição são de primeira. Por que renegar tais recursos e talento a um relato inusitado, latino, histórico?
É justamente aí que está o pé de barro de Apocalypto: a ingenuidade com a qual aborda alguns valores vigentes antes de qualquer contato com a civilização européia. Gibson pinta a cultura maia com tintas cristãs. As famílias são resolvidamente monogâmicas, há compadecimento, há o céu e há o inferno. Amor, pena e medo existem desde que o homem é homem, mas na tradução que assisti deixaram escapar um "misericórdia"! A própria saga de Jaguar Paw, com muita dor física e psicológica, recebeu tratamento semelhante ao que o diretor deu a Jesus Cristo em seu longa anterior.
Antes que eu me esqueça: Apocalypto é uma bomba. Tinha gente gargalhando no cinema da egotrip de Mel Gibson. Eu também ri, mas não muito alto.

dito e feito por Urbenauta| 3:08 AM
Vozes do Além:


Sexta-feira, Abril 21, 2006

Sábado de Aleluia

Promessa, para mim, é coisa séria. O respeito - ou medo - ao que não conheço faz com que eu não queira deixar nenhuma pendência metafísica com o que, supostamente, me ajudou a chegar aonde queria e pode me punir ou retirar isso de mim a qualquer momento. Não é com freqüência que eu apelo para este mecanismo, mas me senti à vontade para fazer este pedido. Levei uma bronca da minha avó: "Promessa tem que ter a ver com a Igreja, não pode ser assim." Mas eu falei o nome de algum santo? Os termos foram os seguintes: eu faço a minha parte e nada acontece se eu não merecer de fato. O empurrãozinho seria no sentido de nada dar errado à toda, por nervosismo ou ansiedade.
E eu consegui. E eu cumpri a minha palavra.
Saí a pé do Jardim Consórcio em um sábado de aleluia nublado às 10h48 da manhã. Ao meu lado, o companheiro a quem eu gostaria de proporcionar mais aventuras exploratórias, e está me deixando provar o quanto elas são possíveis, unificadoras e estimulantes. Era a companhia primeira, vinda espontânea e providencialmente.
Creio que alguns aspectos da caminhada causaram mais estranhamento nele do que em mim. Imagino que a mudança no seu ritmo automotivo tenha em alguns momentos provocado nele um efeito de cinema, daqueles já clichês, quando uma ação central acontece em câmera lenta enquanto o fundo está acelerado.
Pois foi com esse efeito que eu vi, ainda na avenida Interlagos, o trio elétrico que expunha a popa da bunda de algumas garotas que agitavam o pompom de uma concessionária de automóveis. Uma delas estava na calçada. Só ali eu pude ver o capricho da aplicação de sua maquiagem coreana, cheirosa e brilhosa. Glitter e gloss são sinônimos, mas produtos diferentes.
Menos de uma hora depois chegamos à esquina com a Vicente Rao. Ali tem uma coisa interessante: uma pista fechada pela obra viária de interligação do trolebus do ABC com o trem da Marginal Pinheiros. Se ela vai ficar pronta antes das eleições eu não sei. Já tive esta esperança outras vezes, afinal esta obra anda a passos de tartaruga há mais de 15 anos. 15 anos, para um trajeto de menos de 15 quilômetros. A conta é fácil: um quilômetro por ano. Levando em consideração o estágio daquela quebradeira, é mais fácil eu juntar dinheiro, aprender a dirigir e comprar um carro do que contar com esse trem. O chapéu no ICSM, agora, é dado sem culpa.
Comemos banana, fonte rica em potássio. Doamos a casca para o adubo do canteiro da churrascaria cara, mas brega.
Ah, o Mundo Encantado da Berrini. Favelas na esquina com a Água Espraiada (ou Jornalista Roberto Marinho, se preferir, nome adequado para a avenida mais roubada do país) resistem ao projeto higienista de limpar a região e fazê-los chegar, duas horas depois, de ônibus e marmita na mão, para trabalhar ali mesmo. No arranha céu destaca-se um prédio branco que parece o chapéu do Papa. Não, você não está entendendo: é IGUALZINHO o chapéu do Papa, o próprio Papaimóvel.
Pra lá de duas horas depois, o lugar mais difícil estava para chegar: a ligação com a Faria Lima. Antes, que tal uma passadinha rápida na Daslu?
O Rio Pinheiros fedia. Cones e correntes não são artigos de uma boa anfitriã. Da avenida o prédio ainda parecia estar longe. Mais do que esses artefatos hostis e a presença de seguranças, o que intimida a entrar ali é o enorme espaço vazio, simbólico, intransponível.
Queria ter visto novamente os seguranças na plataforma do outdoor. A primeira vez em que vi fiquei horrorizada, mas caí que nem uma pata na defesa da empresa dizendo que eles são muito bem tratados, se revezam frequentemente e preferem este trabalho ao praticado no dia a dia (mexe com a auto estima, e tal). De qualquer forma, o outdoor não estava lá, acabaram com a festa deles. Outra frustração: também não conseguimos passar pela passarela Marcelo Frommer..
Ruas de restaurantes chiques, perfeitos para almoços casuais em família. Manobristas se esbaldam nas Pajeros e Mitsubishis, mas os donos não percebem. Dobramos a esquina: um trailer de dogão no meio das obras faz sucesso entre os peões que ralam no feriado santo.
A Faria Lima é, no geral, bem sem graça. São monótonos os amplos saguões de prédios de fachada transparente. Paramos para comer no Iguatemi. Obviamente, fomos no único lugar que poderíamos pagar e pedimos dois número um. Eu adoro entrar no Iguatemi molambenta, mas desta vez eu me superei: depois três horas de caminhada e vestindo um shortinho comprado no Largo 13, foi a primeira vez. Isso sem falar na camiseta. Ela era velha, mas o furo novinho, novinho. Dignamente, pagamos o lanche e sentamos, pela primeira e única vez no trajeto.
Cruzamos a Rebouças até o Largo da Batata, e passamos por toda a experiência sensorial que aquele lugar nos proporciona em uma tarde de sábado. Sons, cheiros, cores, formas e sabores tipicos, sem contar na interatividade tátil com os seus iguais ao atravessar farol.
E de repente, tudo fica calmo. Entramos em outro logradouro arborizado e insosso. Tão insosso, que eu nem sei o nome. Só sabíamos que eles nos levaria até a Praça Panamericana. E a pergunta que não quer calar: calçada, pra quê?
Passamos pela ponte da marginal. Na rua Alvarenga, um mano em um Corsa zoado observa a obra na escola de espanhol onde estudei, e que não existe mais.
Quatro horas e meia depois, cruzamos o portão da Cidade Universitária, o ponto de chegada da expedição. Essa promessa não poderia acontecer muito depois, ela precisava que houvesse aquele encantamento que eu ainda sinto em passar por aquele portão. Precisava que eu visse o meu caminho diário com outros olhos a partir dela.
Afinal, os trajetos cotidianos indicam também o rumo de uma vida. Eu escolhi fazer este caminho todos os dias, e tive que conquistar o direito a fazê-lo. O modo como eu me conduzo por ele vai fazer parte da minha formação, exercendo influência no modo como vou estudar, me cansar e até mesmo nos riscos que correrei. Nada mais justo deixar que ele me dê sinais de como poderemos nos relacionar daqui para frente.
Caminhando, eu subverto a força urbana que a cidade exerce sobre mim, mesmo que por um momento. Deixo de ser oprimida pelo seu espaço e passo a dominá-lo, obtendo para sempre a sensação de que cada lugar por onde andei me pertence de certa forma. Ao mesmo tempo, sinto que também existirá um pouco de mim vagando por aquelas ruas, buscando inspiração nos personagens e situações por quem passamos tão cansados e distraídos.
Promessas têm que ser difíceis. Espero que não seja um pecado esta ter sido um prazer.

dito e feito por Urbenauta| 11:26 AM
Vozes do Além:


Domingo, Fevereiro 05, 2006

Alguém pergunta a mim como me sinto. Alguém que não me conhece, mas que eu conheço razoavelmente bem (ah, essas ilusões que alguém competente como Scorsese deixa na gente...). Este alguém fala de anonimato, solidão ("to be on your own"), perda de direção. Enquanto eu sucumbia ao sono, o seu ritmo peculiar me assustava. E ele parecia me inquirir, se aproveitando da fraqueza do meu subconsciente. Palavras articuladas uma a uma, com a força da juventude de alguém que já está de saco de cheio de tudo à sua volta. E eu respondia tudo em sonho, pesadelo, o que quer que fosse. Bob Dylan é tudo o que a América tem de melhor: é blues, é folk, é rock de verdade. São letras honestas que desnudam qualquer um; a gaita que rasga os seus ouvidos. Acho que sou a sua mais nova fã, mas mereço a chance de dizer "how does it feel" em ouvi-lo, não mereço? "No Direction Home", em cartaz no Telecine Premium, é quase um chip nas entranhas deste grande músico. A câmera atravessa seus olhos azuis, desde a época em que eles ainda nem eram azuis, nas preciosas imagens de arquivo. Não é exagero dizer que o filme de Martin Scorsese extrai as memórias de sua mente. Foi ali que eu saí um pouco dos clichês, das músicas mais famosas, para conhecer um pouco mais a sua obra. Mas é melhor parar por aqui e recomendar o documentário. E todos os discos de Dylan.

dito e feito por Urbenauta| 10:30 AM
Vozes do Além:


Domingo, Setembro 25, 2005

Do alto de seus 96 anos, Manoel de Oliveira nos brinda com um filme vigoroso, uma das mais bem fundamentadas e contundentes críticas ao sistema imperialista, que desde sempre assombrou a História de nossa Humanidade. Não é facil recomendar "Um Filme Falado": a narrativa lenta, as imagens contemplativas, os diálogos muitas vezes retóricos e artificiais... Mas eu não poderia ter deixado de ver esse filme se quero dizer que me interesso por História e desejo diminuir a ignorância que uma educação absolutamente aquém dos meus anseios me proporcionou. Os símbolos sao usados com habilidade, afim de não parecerem meras referências empilhadas uma em cima da outra: a esperança, o temor e as glórias do passado são representadas pelo navio; a manhã de nevoeiro evoca o mito de dom Sebastião. Uma professora universitária de História e sua filha de sete ou oito anos anos partem, sem ter de quem se despedir, em um cruzeiro em busca do terceiro membro da familia: o marido e pai, que é aviador e está de férias em Bombaim. Com um tom didático (que tambem pode aborrecer; a mim particulamente me encantou) Rosa Maria descontrói a História para a pequena Maria Joana, que a questiona com extrema complexidade filosófica no mais simples vocabulário infantil. Todo o discurso acadêmico se constrange com suas perguntas pontuais e irrespondíveis. Se isso já valeria o ingresso, a segunda parte é o glaçúcar deste Pastel de Santa Clara. Entram em cena outras culturas, que vão se confrontando, inclusive entre si mesmas, entre seu presente e seu passado. A culta atriz grega está de luto há 1600 anos, a italiana é uma viúva alegre em crise de criatividade; a francesa é francesamente representada por Catherine Deneuve, o que singifica unir forma (tudo bem que ela não e a mesma de "Indochina") e conteúdo (arrogância, ironia e ranço). O comandante do navio é um americano (sacaram?), e você ficará feliz como eu fiquei em saber que este americano é John Malkovich. O bom do John Malkovich é que ele sabe ser patético quando precisa. Bancando o diplomático, ele não passa de um aparvalhado, expondo cruamente a mediocridade de tudo o que a "cultura norte-americana" tem a nos oferecer. Qual a sua contribuição? Um lingua pasteurizada e nem um pouco desafiadora? O consumismo? A tolerância entre dentes? Quando as jovens e sábias portuguesinhas se juntam às matronas amarguradas, uma brisa fresca de auto-conhecimento e ingenuidade invade a sala escura. Porque o isolacionismo e a neutralidade de Portugal são colocados como uma opção, como se elas não quisessem se prostutir aos encantos do "comandante". "Um Filme Falado" causa aquele desconcerto necessário, e ajuda a reorganizar os argumentos que muitas vezes a gente sente, mas não consegue expressar. Da margem da União Européia, Manuel de Oliveira fala de uma posição privilegiada. Pela idade e pelo prestígio que possui, não se sente oprimido como nós, para quem as alternativas a este sistema parecem esgotadas.
PS: O mais irônico de tudo foi ter ido fazer uma prova de inglês depois de ver o filme...

dito e feito por Urbenauta| 11:39 PM
Vozes do Além:


Quinta-feira, Setembro 22, 2005

Tem alguma coisa errada quando:
- O conhecimento só serve para humilhar e legitimar uma pretensa posição superioridade.
- A tolerância e a diversidade são apenas palavras bonitas em um discurso retórico, vazio e incoerente.
- Não há antropologia, Cinema Novo, Sérgio Buarque e Zé Celso capazes de mudar uma postura arrogante.
- As cidades que você diz amar só servem de coadjuvantes charmosos na sua história de vida.
- Estes pensamentos eugenistas parecem justificáveis em nome de uma fantasia da classe média de um país subdesenvolvido.

Zé Geraldo canta os olhos, e os meus reagem a esta canção furtiva e sinceramente.

Zé Geraldo
Olhos

Não me olhe desse jeito
Olhar maduro
Existe muita coisa ainda
além do muro
Olhar de fada
Às vezes um olhar sabido
não sabe nada
É preciso mais que olhos pra se ver a vida
Essa coisa grande estrada tão comprida
Onde a gente põe o pé pra caminhar
É preciso que se olhe o que se tem no peito
Que é pra ver se dentro não tem um defeito
Que daqui de fora não dá pra espiar
Quero que me olhe claro
Porto seguro
Que o meu amor ancore
mesmo no escuro
Quero que me olhe aceso
Olhar de fogo
Pra gente começar se olhando
tudo de novo
É preciso mais que olhos...
tudo de novo!

dito e feito por Urbenauta| 4:34 PM
Vozes do Além:


Segunda-feira, Setembro 12, 2005

Despreenchimento

É estranho. Não há nada de errado em ouvir daquela pessoa que bradou que você não sabia dividir as suas coisas, que apelou pra instituição gelatinosa da família, cadê o "meu" livro, cadê o "meu" DVD. Mas é estranho. Quando a coisa aperta a gente sabe direitinho o que é nosso, e sabe lutar por isso. Se no filme coreano "Casa Vazia" os protagonistas encontram o amor co-habitando casas de estranhos, aqui no Jardim Consórcio nós éramos os estranhos em nossa própria casa. E nos desencontramos do amor. Havia o conforto com a presença do outro. Havia a confiança. E às vezes até respeito. Mas dificilmente havia afeto. Não o afeto meloso, interesseiro, esse também nunca existiu. Faltou o mínimo de atenção pra quem mais precisava dela. Quatro personalidades tão diferentes, que só se assemelhavam nos defeitos. Nunca tive muito tempo, mais do que isso, disposição para ser menos hóspede, sublocatária do quarto do segundo andar. Minha cabeça estava em outra. Fui pressionada por outras coisas, que feriam o meu direito de ser quem eu sou e a minha capacidade de agir com espontaneidade. Pra quem não é nenhum Buda, existe um processo para a conquista de um espaço de influência sem histeria nem arrogância. Nenhum de nós quatro chegou ao meio do caminho.
Somos formados por razoavelmente poucos membros, migrantes e imigrantes, nosso conceito de família é muito peculiar. Temos horror a almoços de domingo e visita de parentada. Não temos nem de quem falar mal. Não achamos dever satisfação a ninguém da nossa vida, afinal está todo mundo tão longe, e ninguém é obrigado a se importar com ninguém. Mas por outro lado, nos cobramos muito, pois quem está próximo está realmente próximo, e é como se com essas pessoas devéssemos gastar toda a nossa energia. Isso em si não é ruim. Imagine, por muito pouco eu poderia ter nascido em Maceió e estar no esquemão sítio de domingo - cachaça - brincadeiras de humilhação. Era tanta hipocrisia que eu vim embora chorando da última vez que estive lá. Isso talvez explique o desapego, o pavor no compromisso com quem é de fora (menos no meu caso).
Nosso preconceito ocidental faz com que vejamos "Casa Vazia" e pensemos que só na Coréia pode existir um casamento arranjado e infeliz, que só lá se abra uma brecha para aquela situação. Pois aposto que no meu condomínio colorido existem dezenas de casas vazias, e na sua vizinhança também.
A casa ainda está cheia de coisas que eu não aproveitei, discos que eu não ouvi, livros que eu não li e filmes que eu não assisti. Mas está vazia de alguém que faz todos esses objetos terem sentido. Contraditoriamente, a única lição tardia que eu posso tirar é que os CD´s se vão, mas o Blues fica.

dito e feito por Urbenauta| 8:19 AM
Vozes do Além:


Segunda-feira, Agosto 08, 2005

Aprendendo com Serra Negra

Se você for a Serra Negra e enjoar de fazer compras na José Paulino das malhas, conheça um lugar mágico: a Disneylândia dos Robôs. Minhas retinas fatigadas nunca tinham recebido a vibração ótica de um local tão pós-moderno antes. Já vou avisando que custa R$5,50 com carteirinha, se você preferir comer um lanche ou comprar uma regatinha (em Serra Negra dá!) não me xingue depois. Eu estive lá e ainda não sei se valeu a pena ter pago isso.
Imagine se no final da estrada de ladrilhos amarelos descobríssemos que o protagonista da história é o Homem de Lata e não a Dorothy. Imagine ele reconhecendo a sua perfeição, maior do que a dela. Pedrinho Tomé, o proprietário do local, é um Mágico de Oz às avessas. O ex-mecânico autodidata montou seus robôs e esquemas toscos sem se preocupar muito em passar uma mensagem com isso. Transformou em máquinas o que em nós há de mais humano: a capacidade de sonhar e de realizar estes sonhos. Sua atitude valoriza ainda mais o que a Disneylândia dos Robôs tem a dizer: não importa se, no futuro, vamos viver em uma sociedade totalmente informatizada: haverá sempre alguém que erguerá o seu polegar opositor e usará o seu telencéfalo altamente desenvolvido para apertar um botão. São obras e instalações que nos levam a ações sem o menor sentido, como ligar um ventilador supersônico, rolar bolinhas por um trilho ou movimentar o robô em uma bicicleta ergométrica. E não é isso o que fazemos a todo o momento, coisas sem o menor sentido?
A planta do local é labiríntica, com pequenos corredores que levam do nada a lugar nenhum. As placas geram uma expectativa que os ambientes não dão conta. Não que eles não reservem surpresas. Observe com atenção uma parede de tijolos aparentes daquele ambiente escuro: você verá um buraco com fêmures e tíbias e uma placa onde está gravado "Ossos Humanos". Ossos que não somente SÃO ossos, mas PARECEM ossos! Mais didático impossível. Imagens de primatas, papiros, pastiches neoclássicos, réplicas de armas da segunda guerra, anões de jardim e ET´s embalsamados são uma travessia rápida através do conhecimento acumulado pela Humanidade e pelo mistério da magia os quais Wonka, quer dizer, Tomé, esforça-se em reportar. Na Disneylândia dos Robôs só faltam mesmo os oompa loompas.
Pedrinho Tomé, além de mecatrônico experimental, é um estudioso da qualidade de vida. Longevidade, saúde, harmonia e equilíbrio são palavras recorrentes em suas apostilas manufaturadas com recortes de jornais e revistas justapostos de forma muitas vezes incoerente, quase sempre divertida. Ele também confecciona apostilas personalizadas para aumentar a sua expectativa de vida. Duvida?
Comecei a especular sobre como a busca pelo corpo perfeito e pela saúde impecável tinha a ver com a antropomorfia dos robôs. Se temos obsessão por silicones, botox e lipoesculturas, transferimos isso para as máquinas: damo-nas olhos de porcas, narizes de funil e membros articulados. A gente não tem mesmo outra lógica. Tomé refutou a minha teoria, cada vez mais complexa e confusa no meio daquele caos de luzes barulhentas e sucatas. (Na Disneylândia dos Robôs, os sons não só vêm com as luzes, mas parece vir delas). Disse que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Não me convenceu. Ele também faz apostilas sobre ufologia, o que reforça o seu fascínio sobre formas alternativas de inteligência. Quem sabe ele não nos apresente uma onde vidas não sejam compulsoriamente concebidas com olhos de porcas, narizes de funil e membros articulados?

dito e feito por Urbenauta| 6:50 PM
Vozes do Além:
obsessão do dia
Roberto Carlos em Detalhes
O mérito de amar as qualidades e os defeitos de alguém perdeu a queda-de-braço para a censura. Desculpa, Paulo, mas eu li pela internet...
já era
circuito